19/9/2007 17:08:16 - Tecnologia, Informática e Comunicação: Dilúvio de Conhecimento ou Dilúvio de Informação?

O mundo globalizado não é uma moda, mas sim o resultado das revoluções tecnológicas que disseminaram amplamente a informação, a qual vem sendo responsável por um estreitamento entre as nações em nível econômico, político, social e cultural tornando-o cada vez mais interdependente.

Uma das principais características contemporâneas e que dão um sentido "novo" à questão da economia baseada no conhecimento é a explosão informacional propiciada pelas TICs (Tecnologia, Informática e Comunicação) lideradas pela Internet. É inegável que a Internet trouxe mudanças revolucionárias para o mundo social, cultural e econômico, para os mercados principalmente em se tratando de comunicação,  informação e conhecimento.

Esse é o ponto principal em relação à economia do conhecimento. E é evidente que estamos considerando a diferença abissal entre os conceitos de informação e conhecimento, o que veremos mais adiante, mas basta sabermos que sem informação não há conhecimento.

É notório que as novas tecnologias de comunicação ao mesmo tempo em que impactam fortemente a economia e a cultura trazem uma quantidade gigantesca de informações que poderia ser comparado ao dilúvio. É óbvio que sem a informação seria praticamente impossível governar um país ou gerar novo conhecimento, ou seja, sem ela não existiria a sociedade do conhecimento; portanto a informação pode ser considerada como facilitadora na criação do conhecimento. Também é claro que, apesar de uma grande quantidade da população ainda estar restrita à esfera da simples informação, o conhecimento técnico-científico, mesmo que limitado a uma elite, já se transformou na grande mola propulsora da economia que se encontra hoje na "gestão do conhecimento" baseado na informação.

Umberto Eco afirmou, em 1996, numa conferência da Academia Italiana para os Estudos Superiores, na América: "Penso freqüentemente que as nossas sociedades irão, em  breve, dividir-se (ou já estão divididas) em dois tipos de cidadãos: os que apenas assistem à televisão, que receberão imagens pré‑fabricadas e, portanto, definições pré-fabricadas do mundo, sem nenhum poder de escolher criticamente o tipo de informação que recebem, e os que sabem trabalhar com o computador e que serão capazes de selecionar e elaborar informação".

O problema provocado pelo "ruído" da superabundância de informação relaciona-se, então, não apenas com a sua aquisição, mas com a seleção e produção da mesma. Segundo a UNESCO (1998:57), "as diferenças se estabelecerão entre as sociedades capazes de produzir conteúdos e as que se limitarão a receber informações".

Afinal, o que é informação? Resolve-se a dúvida com mais informação? Informação é sinônimo de Conhecimento?

O conceito de informação e o status central que ele ocupa na sociedade contemporânea têm seguido uma trajetória que vai da informação com significado simples, objetivo e direto (como quando pedimos uma informação a alguém: "por favor, uma informação?") ao "culto" contemporâneo que concedeu um tratamento cientifico, teórico, tecnológico e mercadológico à informação. Embora o conceito não seja especificamente definido, pode-se dizer que informação está mais para um conjunto de dados estáticos de qualquer tipo, seja ele som, palavra ou imagem.

Navegar pela Internet para obter informação? As horas de consulta passam e, muitos sites interessantes foram visitados, mas foram percorridos apenas "de forma superficial", sem que nada além tenha sido acrescentado. Quem adota esta prática teve informação, mas é como se tivesse passado todo o dia numa biblioteca, apenas folheando os livros, decidindo o que ler. É preciso que o fascínio inicial vá dando lugar a um interesse efetivo pelo material que se consegue na rede, que leve à agregação de valor e ao crescimento pessoal e cultural, ao invés de se ficar apenas no nível da informação.

De que adianta acumular tanta informação se não souber o que fazer com elas?

A confusão entre informação e conhecimento é habitual, mas a informação, também não é, automaticamente, sinônimo de conhecimento.  Ela é apenas um dado. É preciso que a informação tenha conteúdo, pois este traz em si um certo valor como coerência, consistência, fundamentação, esforço intelectual e operacional entre outros, para o que está sendo informado, ou seja, o conteúdo agregue valor à informação, transformando-a em conhecimento. Como o mundo da Internet, chamado de mundo virtual, não é separado da realidade uma vez que ele não é irreal, ele acaba refletindo essas diferenças.

Conhecimento sempre significa algum tipo de agregação, algum tipo de adição de valor à informação existente, significa apreender o que foi informado com conteúdo. Segundo Adell, (1997:8), o conhecimento implica uma informação selecionada, elaborada, interiorizada e adequadamente integrada nas estruturas cognitivas de um sujeito. Ele é algo pessoal e intransmissível, pois só podemos transmitir informação que pode ou não ser convertida em conhecimento pelo receptor. A informação só se torna conhecimento se ela é um dado vivido, experimentado.Vê-se então, que o conhecimento resulta de um processo de aprendizagem dinâmico e experiencial, fruto de uma construção pessoal e é esta vivência que nos dá lastro cultural. Mas é preciso que haja crivo interpretativo, para não nos perdermos na exuberância do conhecimento.

Considerando que estamos vivendo num mundo em que é necessário acessar a uma multiplicidade de informações, aprender permanentemente é fundamental. Precisamos, mais do que saber coisas, saber aprender, dominar os processos pelos quais vier a nos aproximar do conhecimento e da informação.

Se o conhecimento constitui a ferramenta mais importante neste novo contexto de mercado globalizado; se na era da Informação a nova riqueza das nações passa a ser o conhecimento; e se esse universo é cada vez mais disputado pelos atraentes veículos transmissores de informação, após o exposto fica a dúvida se estamos realmente entrando em uma sociedade igualitária baseada no conhecimento ou se estamos na realidade em uma sociedade da informação.

Nancy Gorgulho Chaves Braga - Economista e mestre em Economia Política, consultora empresarial, professora de Graduação, Pós-graduação e MBA, conselheira do CORECON-SP



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